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Ovos de Concreto: Os Segredos que Estão Moldando o Futuro

Casal jantando em uma adega

Quando pensamos em uma vinícola, a imagem que vem à mente é quase sempre a mesma: fileiras de barris de carvalho imponentes e tanques de aço inoxidável brilhantes. Mas e se, no meio desse cenário clássico, você encontrasse um objeto inesperado, escultural e intrigante: um ovo gigante de concreto? Essa imagem, cada vez mais comum em adegas de vanguarda, como a Vinícola Guaspari em São Paulo, ou Guatambu, no Sul, desperta a curiosidade. Seria apenas uma tendência estética ou por trás dessa forma peculiar se esconde uma revolução silenciosa? A resposta é que este não é apenas um recipiente; é uma ferramenta filosófica na busca por vinhos mais puros e expressivos, alinhada aos movimentos de vinificação de baixa intervenção que buscam revelar a alma do terroir com o mínimo de "maquiagem".


A tecnologia


O grande trunfo do ovo de concreto está em sua capacidade de combinar as melhores qualidades dos dois recipientes mais tradicionais da vinificação. O concreto é um material poroso, o que permite uma troca sutil e gradual de oxigênio com o vinho — um fenômeno conhecido como micro-oxigenação. Esse processo, muito similar ao que ocorre nos barris de carvalho, é fundamental para amaciar os taninos e conferir uma textura de boca ampla e finamente granulada, como seda crua.


Por outro lado, ao contrário da madeira, o concreto é completamente neutro. Ele não transfere nenhum aroma ou sabor ao vinho, como as notas de baunilha, especiarias ou tostado típicas do carvalho. Nesse aspecto, ele se comporta como o aço inoxidável, preservando a pureza da fruta e a expressão mais autêntica dos aromas da uva. É a ferramenta perfeita para vinhos como o Sauvignon Blanc da californiana Spottswoode, que busca mineralidade e complexidade sem mascarar o caráter vibrante da casta.


A enóloga da Spottswoode, Jennifer Williams, resume essa dualidade perfeitamente:

"os ovos atuam muito como os barris de carvalho ao conferir textura ao vinho sem, entretanto, trazer sabores especiados e de baunilha, preservando a fruta e os aromas, como o aço inoxidável”.


O formato não é (só) estética: o ovo é um motor natural.


A escolha da forma oval vai muito além do simbolismo. A ausência de cantos permite que o líquido se mova de forma autônoma e perpétua. À medida que as leveduras consomem o açúcar, elas liberam calor e bolhas de dióxido de carbono. Esse calor aquece o vinho junto às paredes, fazendo-o subir, enquanto o gás o impulsiona. Ao chegar ao topo mais frio, ele desce pelo centro, criando um vórtice suave e constante que banha as borras de forma contínua e delicada, sem a agressão de uma bomba.


Além da forma, o material em si oferece outra vantagem crucial: a inércia térmica. As paredes espessas de concreto mantêm a temperatura da fermentação muito mais estável do que o aço inoxidável, evitando picos e vales bruscos. Isso resulta em uma fermentação mais regular e homogênea, permitindo que as leveduras trabalhem em um ritmo ideal.


Esse movimento constante e natural não só garante uma evolução mais uniforme do vinho, como também ajuda a prevenir um defeito comum chamado "redução", que ocorre por falta de oxigênio e pode gerar aromas indesejáveis de borracha. O ovo, portanto, age como um motor silencioso que protege e integra o vinho com mínima intervenção.


Não é uma invenção moderna, mas um renascimento de técnicas ancestrais.


Embora o uso moderno tenha ganhado destaque a partir de 2001 na França, a ideia de usar recipientes porosos é milenar, um resgate de práticas que remontam às ânforas de barro romanas e aos Qvevri da Geórgia.


A paternidade do ovo moderno é, ela própria, uma pequena saga. De um lado, o visionário enólogo Michel Chapoutier, que alega ter desenhado o primeiro modelo. Do outro, o mestre artesão Marc Nomblot, o construtor. A "receita" do concreto original revela a filosofia por trás da criação: areia lavada do rio Loire, cascalhos, água mineral não clorada e cimento, sem qualquer aditivo químico. Em sua defesa contra as alegações de Chapoutier, Nomblot argumentou que o design não foi uma invenção, mas sim baseado em princípios universais como a proporção áurea, reforçando a conexão da técnica com um conhecimento ancestral. Essa filosofia ressoou mundo afora, inspirando pioneiros como o enólogo chileno Álvaro Espinosa, que em 2009, motivado por seus princípios biodinâmicos, foi um dos primeiros a levar os ovos para a América do Sul para criar vinhos de mínima intervenção na sua linha Antiyal.


É uma escolha de qualidade, não de economia (e não serve para todos os vinhos).


É fácil pensar que o concreto seria uma alternativa barata, mas isso é um engano. Um ovo de concreto de 600 litros custa cerca de 3.000 euros, um preço comparável a um tanque de aço inoxidável de alta qualidade do mesmo tamanho. Seu uso, portanto, é uma escolha enológica deliberada, focada em um estilo específico de vinho — como o famoso "Concreto" Malbec da Zuccardi, que busca a expressão mais pura do terroir de altitude.


A técnica, contudo, não é uma solução universal. Um estudo alemão revelou uma limitação importante: vinhos de altíssima acidez, como alguns Rieslings, podem corroer sutilmente o concreto devido ao seu pH muito baixo. A pesquisa concluiu que o método é mais adequado para vinhos com acidez mais baixa e pH mais elevado, como os encontrados no sul da Europa. Isso demonstra que o ovo de concreto é uma ferramenta de precisão no arsenal do enólogo, usada para esculpir um estilo particular de vinho, valorizando a fruta, a mineralidade e a textura.


Longe de ser apenas uma moda, o ovo de concreto representa uma fusão fascinante entre sabedoria antiga e ciência moderna. É uma ferramenta que permite aos enólogos criar vinhos de enorme personalidade, pureza e textura, honrando a uva e o lugar de onde ela veio.


Da próxima vez que encontrar um vinho fermentado em concreto, o que você vai procurar na taça: a pureza vibrante da fruta, a textura ampla e sedosa ou a expressão nua e crua de um terroir sem máscaras?


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